Composto antes de Cristo. Excluído em 364 d.C.
O Génesis dedica três versículos ao episódio mais perturbador de todo o Antigo Testamento. Enoque dedica-lhe capítulos inteiros. Descreve os 200 Vigilantes, anjos que desceram ao monte Hermon, os seus líderes pelo nome, o conhecimento proibido que ensinaram aos homens e o nascimento dos gigantes Nephilim. É a explicação completa do que o texto bíblico apenas esboça. E foi deliberadamente retirada.
No Concílio de Laodiceia, em 364 d.C., o Manuscrito de Enoque foi excluído do cânone com uma classificação invulgar: «conteúdo inadequado para o público geral». Ao contrário de outros escritos rejeitados por heresia, este não foi condenado por ser falso. É citado directamente na Epístola de Judas e referenciado em Hebreus e na Segunda Epístola de Pedro. Foi retirado por aquilo que continha, não pela sua origem.
Os 1.600 anos seguintes apagaram-no. Deixou de ser copiado, deixou de ser lido. Sobreviveu apenas em margens distantes do mundo cristão antigo, em línguas que poucos dominavam. Para a esmagadora maioria dos crentes, simplesmente deixou de existir.
Em 1947, tudo mudou. Entre os pergaminhos descobertos nas grutas de Qumrão, os investigadores identificaram pelo menos onze cópias completas ou parciais do Manuscrito de Enoque, em aramaico. As datações foram verificadas pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Um dos achados arqueológicos mais importantes do século XX devolveu ao mundo um texto que estivera em silêncio durante quase dois milénios. Os Três Livros de Enoque chegam agora em tradução integral para português.